segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Descobertas - Parte 1: Meu primeiro beijo

Eu devia ter uns 14 anos de idade. Estava no meu quarto sentada na janela olhando pra rua. Prestava atenção no movimento das folhas das árvores e refletia sobre aquilo. Estava pensativa e queria escrever no meu diário. Peter e John brincavam e gritavam muito no quarto ao lado como de costume. Aquilo me incomodava bastante e me desconcentrava. Resolvi intervir como sempre fazia, mas nunca adiantava. Dessa vez, também não foi diferente. Eu sempre acabava me irritando com aqueles dois.

- Dá pra vocês pararem com isso? Eu estou tentando me concentrar! - eu dizia desconcertada.

Peter: - Se concentrar no quê, Aly?
- Não te interessa!
John: - Você é muito chata, isso sim! Nunca brinca com a gente!
- Eu tenho mais o que fazer!
Peter: - Tipo ser chata?
- Fica calado, Pete! Senão eu vou...
Peter: - Contar pro papai? É só o que você faz!
- Não é só o que eu faço!
Peter: - Eu vou chamar a mamãe!
- Fica na sua, Pete! Eu nem vim aqui brigar!
Peter: - Você sempre vem aqui brigar!
- Eu não! Só queria silêncio! Que droga!

Saio do quarto dos meninos e volto para o meu. Eles continuavam fazendo barulho e eu continuava me irritando com aquilo. Deito na minha cama e tento de todas as formas me concentrar e não consigo. Guardo o diário na gaveta e lanço um olhar para a janela. Era fim de tarde e eu não queria ficar em casa. O barulho vindo do quarto dos meus irmãos era insuportável e eu precisava de concentração. Eu sabia que eles queriam me irritar com aquilo só porque eu fui reclamar. Ainda olhando pra janela, penso:

“Huuum... Acho que vou visitar Daniel... Ainda não é muito tarde! E eu só vou ficar quietinha lendo lá! Ele nunca se incomoda com a minha presença!”

Daniel era meu melhor amigo na época. Era meu vizinho desde que eu tinha 5 anos. Ele tinha a mesma idade que eu e a gente se dava super bem. Eu me dirijo para a janela e a pulo. Escalo a parede de fora com cautela e atravesso o jardim da frente da minha casa tentando não fazer barulho. A chata da minha mãe ia dar chilique se me visse saindo perto da hora da janta. Ela não podia me ver. Consigo chegar à casa de Daniel e escalo a parede até a sacada. Chegando lá, bato três vezes na janela como havíamos combinado que eu deveria fazer nesses casos. Digo:

- Dan! Sou eu!

Ele abre a porta da sacada e eu sorrio.

- Obrigada! - eu dizia cordialmente.
Daniel: - O que foi dessa vez, Aly?
- Eles estão muito insuportáveis hoje!
Daniel: - Novidade! Você sempre os acha insuportáveis! Eu acho que você deveria aprender a se dar melhor com seus irmãos, sabe?
- Impossível! Eu me sinto uma intrusa dentro da minha própria casa! Se não fosse por papai, acho que não estaria mais lá!
Daniel: - Para de falar bobagem, Aly! Eu sei que você ama sua família!
- Eu amo papai! Mamãe é uma chata tagarela chorona e meus irmãos uns pentelhos insuportáveis! Mas eu não quero falar disso!

Sento na cama de Daniel e começo a ver o mural de fotos dele.

- Eu lembro desse dia! A gente se divertiu tanto! Ah sim! Não te perguntei! Você falou o que te falei pra falar com Jessica? E aí? - eu dizia intrigada.

Daniel se senta do meu lado e diz:

- Nem falei... Fiquei preocupado com um detalhe...

- Que detalhe? - eu dizia franzindo as sobrancelhas.
Daniel: - Eu nunca beijei ninguém, Aly... E se ela aceitasse e quisesse alguma coisa? Eu teria que beijar ela, não?
- Deve ser fácil! Eles vivem fazendo isso nos filmes! É só imitar!
Daniel: - A gente podia treinar!
- O quê?
Daniel: - É! Aí se fosse ruim, um dizia pro outro e a gente podia aperfeiçoar pra fazer direito com a pessoa que a gente gostasse...
- Mas a gente é amigo, Dan! Não faz sentido...
Daniel: - Você não quer me beijar, Aly? Eu nem sou tão feio assim, vai?
- Não é isso... É que...

Ele estava decidido a fazer aquilo e eu não entendia muito o sentido daquilo tudo. Mas com Dan era assim. Quando ele colocava uma coisa na cabeça, era difícil de tirar. Ele começou a me olhar com uma cara de garoto pidão e eu acabei fazendo o que ele sugeriu. Foi estranho, mas eu não diria que foi ruim...

Daniel: - E aí?
- É esquisito assim mesmo?
Daniel: - Você também achou? Vai ver que é porque a gente é amigo, né?
- Pode ser! Quer tentar de novo?
Daniel: - Pode ser!

A segunda vez foi melhor o que me levou a concluir que aquilo era questão de prática.

- Bom, acho que agora a gente sabe fazer!
Daniel: - Então eu posso falar com Jessica?
- Creio que sim! Mas como eu já te disse antes, eu acho que ela nem vale o esforço!
Daniel: - Você vive implicando com as gurias que eu gosto!
- Eu não tenho culpa se você tem mau gosto!
Daniel: - Você também não tem bom gosto, Aly! O tal do Juan é muito esquisito!
- Eu que gosto dele e não você, Dan! Ou será que você gosta?

Começo a rir da cara dele e ele faz cara feia pra mim.

- Brincadeira, bobo! - eu dizia debochada - Acho que está na hora de eu ira antes que mamãe venha fazer escândalo aqui na sua porta como da última vez. Nem foi legal aquilo...
Daniel: - Foi engraçado, Aly!
- Eu nem achei não... Seus pais devem achá-la louca e eu não os culpo por isso! Mas eu que morro de vergonha porque ela não está nem aí! Eu não consigo entender o que papai viu nela. Sério!
Daniel: - Seu pai ama ela por ela ser diferente dele.
- Vai se entender... Bom! Eu tenho que ir! Tchau, Dan! Obrigada pelo abrigo e até!
Daniel: - Tchau, Aly! Obrigada pela ajuda!
- De nada!

Sorrio, saio pela sacada e volto para minha casa. 

Um comentário:

Carlos Ferreira disse...

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